Argentina sangra

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Por Fernando Buen Abad Domínguez

México

Não se trata de menstruações, nem arranhões nem ferimentos leves. É uma hemorragia dolorosa em cataratas que inundam planícies e cordilheiras. A vida se esvai enquanto se paga antecipadamente. Não sangra por sua vontade. Alguns choram e outros celebram. A devastação diária surge de sua guarita bancária, empresarial, governamental e com seus três poderes municipais, provinciais e internacionais, percorre praças, avenidas, campos e história.

Vai e vem com uma língua tripartite que reúne em colheradas enormes goles de sangue. A devastação anda feliz entre os mercados e as esperanças espancadas. A devastação anda barriguda, bem alimentada e agasalhada com uma bandeira patriótica de impunidade globalizada.

Sangra a Argentina ao pôr do sol, ao amanhecer e sob as estrelas. Sangra à lua e ao sol. Sangra nas manchas de sangue que não se secaram nas praças ou nas vilas. Sangra aos borbotões de impotência por sua raiva e sua solidão.

A Argentina sangra. A Argentina se afunda em um mar vermelho onde os senhores neoliberais e seus criados passeiam em iates. A Argentina afunda devido ao excesso de peso da miséria e do crime em meio às ondas agitadas pelo furacão. O próprio sangue. “Salve-se quem puder”… “Seja o que Deus quiser”… andam dizendo a sotavento.

A devastação se faz fotografar para os jornais. Se faz entrevistar na TV. Vocifera nas rádios. A devastação bem vestida e de maquiagem se olha na miragem de ilusões, se penteia com a saliva do mercado, ajeita a gravata e apresenta seus noticiários noturnos pintados com o sangue mais fresco do dia que termina.

A vida manchada de sangue se vai entre macabros augúrios que sobrevoam as economias, os prazos fixos e os salários recebidos via bancária. Miséria, desnutrição, hospitais destruídos, escolas em ruínas, podridão e fedor à direita e à esquerda. Depressão, mau humor, desesperança, tédio, tristeza, melancolia… raiva… fúria… ódio. Cansaço e solidão.

Trabalhadores devastados, operários humilhados. Idosos vítimas da indolência… enfermos devorados pela burocracia. A vida segue entre aplausos de abutres que pontilham a carnificina neoliberal com a jurisprudência.

Também sangra a Argentina em sua desolação e sua perplexidade. Suas dívidas históricas e monetárias internacionais. O que fez e o que não fez. Sangra a indiferença de seu próprio povo e dos estranhos. Sangra a mesquinhez de suas “conquistas” e seus atrasos. Sangra aos borbotões sua arrogância e humilhação. Sangra sua prepotência e sua ternura.

Trata-se de uma hemorragia terminal em furacão. Voam pelos ares o umbu sombreador e o monumento à bandeira, os heróis e os desempregados. Voa a constituição e voa o tango entre os redemoinhos de enganação política de enrolações macroeconômicas e promessas eleitorais. Hemorragia em furacão e dolorosa onde abreviam seu cinismo aqueles que sabem como fazer negócios com a morte.

Era de se esperar. Sangrando esta a Argentina, aberta como um canal no retalhador didático que mostra o que sabem fazer os “bons rapazes” empresários, as “mass media”, os ministros religiosos cúmplices, o poder executivo, legislativo e judicial. O capitalismo em pessoa.

Os ignorantes médicos transnacionais, especialistas na produção de hemorragias, dizem que a da argentina vai parar quando acabe a corrupção. E não há gargalhada irônica que alcance o tamanho da desfaçatez…

Dizem que isso é cura com mais créditos, com novos investimentos de empresas novas que irão fechar as feridas. Que têm estudado bem o remédio. Que se devem suprimir algumas leis, reduzir empregos e liberar o mercado… que isso é bom. Aí virá o bem-estar e a felicidade… que tudo será super… Que os créditos retornarão. Que retornarão os investimentos.

Que não será derramado mais sangue. Prepara-se um grande acordo com os governadores, prepara-se um pacote de medidas econômicas, prepara-se um “plano para ajudar os mais necessitados”, prepara-se a máquina da mídia, preparam-se as eleições, preparam-se as empresas privatizadas para aumentar os preços, preparam-se os bancos para fugir, prepara-se o dólar para subir, prepara-se a polícia, prepara-se o exército. Prepara-se toda a desmemória. Prepara-se a seleção nacional para vencer a Copa do Mundo. + (PE/Rebelión)

Fernando Buen Abad Domínguez é mexicano de nascimento (Cidade do México, 1956) especialista em Filosofia da Imagem, Filosofia da Comunicação, Crítica da Cultura, Estética e Semiótica. É diretor de cinema. Membro da Associação Mundial de Estudos Semióticos; do Movimento Internacional de Documentaristas; da Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade. Atualmente é Diretor do Centro Universitário para a Informação e Comunicação Sean MacBride e do Instituto de Cultura e Comunicação da Universidade Nacion

Versión en portugués del despacho SN 420/17 de Ecupres español

Traducción de Prof. Sérgio Marcus Pinto Lopes Tradutor e Intérprete Skype: sergio.marcus1  

SN 421/17

 

 

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