A narrativa política

ETA

 via Ecupres

  Por Pep Castelló

Barcelona

A dissolução do grupo armado basco ETA, um ato endossado por mediadores internacionais em 4 de maio na cidade basco-francesa de Cambo-les-Bains, deu origem aos mais diversos e controversos comentários. A maioria deles tem em comum a pretensão de estar carregada de razão e até de ser a única razão aceitável.

Encontrar a verdade em uma narrativa política é uma tarefa tão árdua quanto encontrar uma agulha num palheiro. Nesse vasto labirinto de mentiras e meias verdades, a certeza está mais sujeita ao emocional que à observação objetiva do que aconteceu.

Aqueles que analisam os fatos vêem o que querem ver e ignoram o que querem ignorar. Aqueles que aderem a uma ou outra estória o fazem dependendo do ascendente emocional da mídia por meio da qual ela chega até eles. E apenas uma pequena parte da população assume a tarefa de investigar os meios à sua disposição, confrontando diversos pontos de vista.

Atrevemo-nos a afirmar, sem receio de cometer erros, que a maior parte da informação que as pessoas recebem é uma massa de mentiras e meias-verdades, mais ou menos bem elaboradas, mas sempre conveniente aos que as divulgam. Além disso, essa opinião pública é o resultado de um bombardeio contínuo daquela mistura habilmente agitada com conteúdos profundamente emocionais. E que ninguém, absolutamente ninguém, está a salvo daquele bombardeio doloroso.

Mais uma vez podemos observar o que acabamos de expor em tudo aquilo que nos chega sobre a dissolução do ETA. A denominação “grupo terrorista” é o denominador comum com o qual se qualifica essa organização armada. Um qualificador que, a nosso ver, visa condenar antecipadamente não apenas todas as suas ações, mas também seus motivos pessoais.

Antes de qualquer coisa, não estamos favoráveis de modo algum à luta armada. Rejeitamos completamente qualquer assassinato, seja qual for o motivo e o modo pelo qual for cometido. Matar, torturar ou causar dano a outro ser humano para impor-lhe a própria a vontade nos parece absolutamente inaceitável. É por isso que consideramos tão criminoso colocar uma bomba em um centro comercial lotado como bombardear uma cidade cheia de gente. Portanto, repreensível é, em nossa opinião, tanto uma reivindicação política que recorre ao terrorismo como a que recorre a uma guerra. É por isso que nos dói esta condenação pública do terrorismo do ETA sem que se condene ao mesmo tempo a sangrenta guerra e a horrível repressão que o precedeu e que de alguma forma o motivou.

A história é sempre escrita pelos vencedores, nunca ou raramente pelos vencidos. O mesmo vale para a narração dos acontecimentos. Aqueles que exercem o controle da mídia impõem a descrição.

Tudo está cuidadosamente controlado, desde as palavras até o modo de pronunciá-las, a música de fundo, se houver, o ambiente visual que as acompanha, o lugar que a notícia ocupa nos jornais, tudo, absolutamente tudo. Equipes qualificadas de profissionais cuidam de todos os detalhes que podem contribuir para modificar o impacto emocional do que é narrado. O controle da opinião pública é o objetivo a alcançar e a resistência pessoal das mentes receptoras é o obstáculo a ser superado. Os poderosos sabem bem que a corrente que melhor escraviza é aquela que é forjada na mente do escravo.

Quatro décadas de ditadura violenta e uma limpeza ideológica que ocupa o terceiro lugar nos genocídios europeus do século XX não foram suficientes para eliminar definitivamente todo o pensamento contrário ao dos golpistas, mas, sim, deixaram a dissidência muito diminuída. Tanto é assim que outras quatro décadas de pseudo-democracia foram necessárias para uma boa parte do povo começar a desejar o fim de toda tirania e a pensar em encontrar meios não-violentos para combater a arbitrariedade do poder. Por isso que no momento presente o poder continua a atacar a liberdade de expressão com tanta fúria quanto nos dias da ditadura.

Dissemos linhas acima que lamentamos que nenhum representante do Estado espanhol haja condenado até hoje os conspiradores do

golpe que iniciaram a guerra civil espanhola causadora de tantas vítimas. Lamentamos o que dissemos, mas agora vamos acrescentar algo mais. Estamos firmemente convencidos de que essa condenação não ocorreu porque aqueles que realmente governaram desde o fim da ditadura até hoje compartilham a mesma ideologia dos líderes golpistas. Só é preciso atentar para suas políticas anti-sociais e para o autoritarismo que revelam na hora resolver conflitos políticos.

Aqueles de nós que, com profundo respeito pela dignidade humana, condenamos toda a violência, não podemos deixar de condenar o silêncio daquela parte da população espanhola que não mostra rejeição à violência institucional do atual Estado espanhol, a começar pela destruidora narração oficial. Lamentamos o comportamento daqueles que estão no governo, mas acima de tudo lamentamos o daquelas pessoas cuja parcialidade faz com que vejam o cisco no olho dos outros, mas não a trave que está no seu próprio. + (PE)

Versión en en  portugués del despacho de Ecupres SN 153/18 La narrativa política por Pep Castelló

Traducción por prof. Sergio Marcus Pinto Lopes

SN 157/18

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