O Projeto Secular de Jesus

Jesus

Por Gonzalo Haya,

Espanha,

via Ecupres

O projeto de Jesus era o formar uma sociedade justa baseada na fraternidade das pessoas como filhas de Deus. Tem, portanto, uma motivação transcendente – que pode ser considerada religiosa – e uma concreção social totalmente imersa em nossa vida cotidiana – que pode ser considerada secular. Eu digo secular, porque reconhece padrões razoáveis de acordo com o consenso da sociedade.

Em nossa prática religiosa, as relações com Deus – o culto e as crenças –monopolizaram nossa atenção, relegando nossas relações mútuas de justiça e solidariedade ao segundo plano. No entanto, Jesus colocou o segundo mandamento – o relacionamento fraterno – no mesmo nível do relacionamento com Deus (Mt 22.34-40).

Além disso, às dúvidas da mulher samaritana sobre o culto religioso, Jesus responde: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” (João 4.23).

Em sua experiência mística no Jordão, Jesus sentiu a Deus como Pai que lhe transmitia seu espírito e o enviava para “evangelizar os pobres… curar os quebrantados de coração … pregar liberdade aos cativos e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19).

Jesus interpretou sua missão fundamentalmente no âmbito do secular, da vida diária, mais que na esfera do religioso. Seu ensinamentos não estavam centralizados em Jerusalém ou no Templo. Ele não ocupou a cátedra de Moisés, mas, antes, percorria as aldeias da Galileia e seus arredores, escutando os problemas do povo, fazendo o que podia para remediá-los ou suavizá-los – fossem milagres ou placebos -, e promovendo relações de solidariedade e fraternidade. “Ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (At 10.38).

A autenticidade de uma experiência mística se manifesta na compaixão. São João da Cruz costumava ir aos hospitais para cuidar dos doentes e lavar seus urinóis. Simone Weil, da família judia, filósofa e mística, trabalhava como trabalhadora agrícola e industrial e se comprometeu com os direitos humanos; mas não quis receber o batismo porque não aceitava sua estrita ortodoxia.

A religião judaica se radicalizou quando retornou do exílio babilônico (do século VI ao século V aC). Esdras e Neemias reconstruíram o Templo e os muros de Jerusalém, e reformularam os textos da Lei, para reafirmar a coesão do povo judeu, que havia se dispersado e se contaminou com a religião e os costumes de seus vizinhos. A fim de fortalecer e preservar a identidade judaica, eles introduziram o descanso sabático no relato da criação, endureceram a proibição dos alimentos impuros, o comer com os pagãos e anularam casamentos com mulheres pagãs, às quais até mesmo expulsaram para seus países de origem. A religião, mais do que um relacionamento com Deus, tornou-se uma garantia de sua identidade nacional.

Jesus inverteu os termos. A relação com Deus não se concretizava num nacionalismo administrado pela hierarquia sacerdotal do Templo de Jerusalém, mas numa relação

solidária e fraterna não só entre os próprios judeus, mas também com os povos considerados pagãos. Jesus praticou suas curas – sinais de salvação messiânica – tanto dos doentes samaritanos, romanos, gerasenos ou fenícios.

Compreendeu que a religião não podia impedir, dificultar ou ignorar essa solidariedade fraterna e universal. O descanso sabático não podia impedir a cura de um enfermo, nem adiá-la até o dia seguinte! As impurezas legais não podiam impedir a comida com os vizinhos, mesmo que fossem de outras religiões.

O Deus de Jesus não é o deus de uma religião exclusivista – judia, cristã, muçulmana ou hindu – mas o Deus da criação “que faz que o seu sol se levante sobre maus e bons” e quem veste “os lírios do campo” (Mt 5.45; Lc 12.27,28).

Os ensinamentos de Jesus tratam mais das relações humanas que das relações com Deus; o segundo mandamento é igual ao primeiro, toda Lei se é resume não no culto, mas no amor fraterno: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta” (Mt 5.23-24).

Quando lemos os evangelhos temos nossa atenção chamada para as frequentes referências às curas e às refeições em comum, quer fossem peixes na praia ou uma festa de casamento. É que Jesus pôs a saúde e as relações humanas na base de seu projeto de igualdade e solidariedade social. Por isso ele comia com os discípulos, com famílias amigas, com multidões judias ou pagãs, ou com fariseus ou cobradores de impostos. O único sacramento que Jesus claramente instituiu ele o apresentou como uma comida, o pão e o vinho, repartidos e compartilhados, a Ceia do Senhor (que Paulo e as primeiras comunidades interpretaram como sacrifício pascoal).

Para explicar seu projeto social – o Reino ou o governo de Deus – Jesus não usou termos ou exemplos religiosos, mas palavras e exemplos extraídos da vida cotidiana de todo cidadão. Exemplos retirados dos elementos da natureza, o sol, a chuva, o trigo e o joio, as árvores, a vinha, os rebanhos; de ofícios comuns: em casa, na pesca ou no campo, empreendida com arrogância, indiferença ou prudência; das relações sociais: amigos, celebrações sociais para casamentos ou reuniões familiares, assistência a um ferido abandonado e, especialmente, de relações pais e filhos.

O projeto de Jesus tem uma motivação religiosa ou, melhor, transcendente: Deus como o Pai comum de toda a raça humana; mas seu conteúdo é tão secular quanto o da Revolução Francesa: igualdade e fraternidade em liberdade (sem guilhotina). + (PE)

Versión portuguesa del despacho SN 173/18

Traducción por prof. Sergio Marcus Pinto Lopes. Brasil

SN 178/18

 

 

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