Os disfarces na comunicação

carlos-valle P12

por Carlos Valle

Buenos Aires

De Página 12

Carlos Valle afirma que o atual sistema social precisa de um elemento de conexão que verifique e valide sua razão de ser e sua permanência, e por isso a informação é posta a serviço de uma estratégia de dominação para neutralizar qualquer possibilidade de que o povo se expresse livremente.

Entre as recomendações que C. S. Lewis inclui em suas Cartas de um Diabo a seu Aprendiz1 destaca-se aquela em que o Diabo exorta a este a que procure demonstrar que não existe. A certeza que as pessoas tenham de sua não-existência lhe permitirá mover-se sem dificuldades e realizar as coisas que deseje sem encontrar impedimentos ou resistência. O mundo atual das comunicações é um mundo de muitos interesses que aprenderam bem essa regra básica e a aplicam usando todos os recursos à sua disposição. Assim, as comunicações modernas se apresentam não como um problema, mas como contribuições bondosas à sociedade.

Como toda autêntica tentação, as comunicações de massa se apresentam como um bem necessário ao qual todos têm direito. Não se impõem, apelam às necessidades humanas. É muito simples compartilhar suas posições. Será esta uma das razões pelas quais, em muitos setores, existe uma atitude passiva perante o que elas comunicam?

Sabemos que os criadores de ilusões não estão interessados em responder às reclamações. Eles as usam como uma tela para ocultar seus verdadeiros propósitos. Para isso induzem a crer que as ações do governo só buscam beneficiar o povo. Mas não se trata de que estejam procurando transformar o mundo, como disse Bertolt Brecht, mas sim fazê-lo esquecer a miséria por um momento.

Seria necessário perguntar se os diversos problemas que afligem nosso mundo têm algum núcleo condutor e aglutinador, sejam tanto os direitos humanos, a dívida externa, o racismo e a ecologia como o lugar da mulher, entre outros. A verdade é que eles correspondem a um modo de se entender a vida e a sociedade que engloba a justiça, a paz e o bem-estar dos povos. Por essa razão, considera-se que qualquer coisa que afete o sistema atual da sociedade não provém dele mesmo, mas de elementos estranhos que vêm corroer sua própria integridade. Uma ideologia ancestral com vestígios de cultura cristã esforça-se para se tornar absoluta e aborta qualquer tentativa de crítica.

Tal sistema, sabemos, se baseia sobre o poder e sua concentração. Promove o incentivo do lucro. Estimula o consumo. Busca a segurança dos poderosos e a submissão de muitos. Administra-se a partir da internacionalização de seu sistema econômico, desenvolvendo uma penetração colonial. Baseia-se sobre os interesses das elites locais dominantes e exerce seu governo através do controle e da repressão social. Desenvolve uma técnica precisa de corrupção em diferentes níveis, enquanto se auxilia com certa justiça para dominar os espíritos rebeldes. Sabe como desvalorizar as culturas indígenas e desqualificar os movimentos populares. Conhece a fragilidade da natureza humana e usa várias iscas para atrair e minar os esforços e a disposição para mudar.

Este sistema para poder funcionar, necessita, entre outras coisas, de um elemento de conexão que verifique e valide sua razão de ser e sua permanência. O mundo moderno há muito tempo encontrou uma resposta: as comunicações. Portanto, a concentração acentuada no poder da informação torna-se uma arma extremamente poderosa para anular toda a expressão do direito humano de se comunicar. A informação é colocada a serviço de uma estratégia de dominação e os valores que prevalecem nos centros de poder são acentuados. O objetivo é neutralizar qualquer possibilidade de as pessoas se expressarem livremente.

O que para alguns é um perigo e uma ameaça um tanto distante, em vários outros países do mundo é uma catástrofe que as pessoas sofrem há muito tempo. As chances de vida de milhões vão sendo limitadas devido à falta de trabalho, desnutrição e enfermidades. São vítimas da rapina, econômica e política, muitas vezes também religiosa, cujos efeitos hoje se espalham para as sociedades que os geraram.

Já não é suficiente referirmo-nos a esses problemas em termos gerais. Fazê-lo seria ocultar sua verdadeira origem e deixar de denunciar responsabilidades. Mas a realidade universal de muitos problemas não deveria deixar-nos esquecer que não se pode chegar a um caminho de solução sem partir do fato de que justiça, paz e o bem-estar das pessoas são elementos inseparáveis.

Não há caminho de restauração se não se começa a partir da perspectiva dos setores mais desprotegidos, muitos dos quais estão confusos com o silêncio a que foram condenados e com os quais devemos começar a construir a comunidade. + (PE / P12)

Carlos A. Valle: Comunicador social. Ex-presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC).

Publicado no matutino Página 12, de 13 de junio de 2018

Foto Carlos Valle Da Página 12

Versión en portugués del despacho de Ecupres  SN 215/18 del 13 de junio 2018   

Traducciòn Prof. Sérgio Marcus Pinto Lopes Tradutor e Intérprete

SN 220/18

 

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