Parte de minha religião

Por Dolores Curia

Buenos Aires

Do jornal Página 12

Existe espaço para a diversidade sexual no reino de Deus? Como saber quem é quem no mundo evangélico, onde convivem o estilo ultra-conservador, estilo bolsonarista, e setores progressistas com uma história de defesa dos direitos humanos? O pesquisador, professor e militante LGBTI, Flavio Rapisardi, e a pastora cordovesa Noemí Farre respondem a isso e muito mais nesta conversa e convidam para o Primeiro Encontro Nacional de Metodistas pela Diversidade.

A posição frente ao casamento igualitário do que se poderia chamar universo cristão – que inclui católicos, ortodoxos, protestantes e ramificações desses três blocos –

não é homogêneo: houve desde rejeição feroz até seu reconhecimento como um direito. A Associação Cristã de Igrejas Evangélicas da República Argentina, que reúne os mais reacionários, se colocou na época, é claro, entre as vozes contra a ampliação dos direitos e por último alcançou visibilidade por sua apresentação nas ruas contra a legalização do aborto.

Mas o mundo evangélico não se esgota aí. Também há setores a favor dos direitos sexuais e com um histórico de defesa dos direitos humanos. Onde estão são, quem são hoje, esses outros setores progressistas é uma das perguntas respondidas pelo pesquisador e ativista LGBTI Flavio Rapisardi: “A Igreja Metodista, à qual pertenço, está localizada dentro do campo de Igrejas protestantes. E os protestantes, por sua vez, fazem parte das igrejas evangélicas (elas se guiam mais pelo evangelho do que pelos apóstolos). Quem estabelece estas diferenças são

Lutero e Calvino e, em particular, no caso do Metodismo, João Wesley. A Igreja Metodista é uma ruptura do anglicanismo e tem um rito católico com algumas diferenças, como um governo horizontal, um bispo que se elege, e um sacerdócio das mulheres permitido há já um longo tempo. Também não tem um clero (que agrupa, para os católicos, os herdeiros da palavra de Deus, começando com o papa)”.

Algo bem longe do que surge no imaginário quando se menciona as igrejas evangélicas…

F. R .: Tanto protestantes como pentecostais nos chamamos “evangélicos”. Os pentecostais são aqueles que todos reconhecemos porque os vemos na praça, gritam, chamam a si mesmos de pastores pela mera iluminação. Quem somos nós, no protestantismo clássico, isto é, luteranos, metodistas, valdenses – uma pequena igreja muito progressista de origem italiana – e os Discípulos de Cristo, nós não estamos de acordo com essas práticas, tais como fazer exorcismos e tudo o que caracteriza o espírito pentecostal. Os pentecostais tendem a ser mais conservadores. Eles se auto-proclamam pastores, então têm menos formação e tendem a fazer uma leitura literal da Bíblia. As traduções populares que tanto os evangélicos pentecostais como católicos usam são complicadas.

Por quê?

F. R .: De cara surge a palavra “homossexual”. Seria necessário lê-la como “sodomia”, já que estamos falando de tempos em que não existia a palavra homossexual. Tudo fica ainda mais complicado nos anos 70, quando surge um neopentecostalismo, uma renovação carismática do que já era carismático. Aí aparecem essas pequenas igrejas, em sua maioria muito conservadoras, que dizem barbaridades, e com muito showbusiness, em todo o país. As igrejas evangélicas protestantes são as progressistas,

aquelas que eram contra a ditadura e criaram o Movimento Ecumênico pelos Direitos Humanos

Como vocês chegam ao Metodismo?

Noemí Farre: Eu me aproximo da Igreja Metodista em Córdoba por uma tremenda necessidade de conciliar minha sexualidade com a fé. Eu nasci em uma casa protestante com uma visão muito tradicionalista. Eu tinha duas alternativas restantes: ou reprimia minha orientação sexual e morria ou começava uma busca intensa e por vezes desesperada para não negar nenhum destes dois aspectos: ser lésbica e ter fé em Deus, no Cristo dos oprimidos

Eu vaguei por 19 anos procurando por uma igreja cristã da que pudesse ser parte. Enquanto isso, estudei psicologia e Bíblia. Eu ouvi sobre a Igreja Metodista e fui falar com o Pastor Raúl Sosa. Ele me disse: “Você é amada por Deus assim como você é. “Orientei meu trabalho para populações vulneráveis, assumi participação ativa na Igreja e me capacitei para o ministério pastoral. Hoje trabalho com uma comunidade diversificada em diferentes aspectos, não apenas no que refere-se a gênero. Nós realmente acreditamos que no fluxo da diversidade se estende o reino de Deus.

F.R .: Depois de uma viagem em que me voltaram perguntas sobre o religioso, volto a Buenos Aires e entro em contato com o Padre Carlos Arasini da Igreja da Santa Cruz. Ele me faz ler a teóloga Dolores Aleixandre, espanhola, associada à teologia da libertação. Ela dizia que quando Jesus percebeu que ele encarnava a palavra de Deus sentiu terror. Encontro aí uma visão muito distante do que geralmente é divulgada de um todo-poderoso castigador. Acabei formando uma comunidade eclesial de base na Igreja da Santa Cruz. Dizia-se que as comunidades de base interpretavam de modo mais libertador o Evangelho. Mas as bases costumavam chocar-

se com a instituição, o clero. Assim que começo a investigar outras formas de cristianismo. No Metodismo, encontrei o que John Wesley chama de “a santificação social “. Interessou-me o seu compromisso com os direitos humanos e desde o ponto de vista teológico, também coincidíamos.

Em que coisas?

F. R.: Eu nunca fui, como disse Arnulfo Romero, do “cristianismo fogueteiro” (viver olhando para cima), mas mais de um cristianismo da palavra e do coração. O discurso de Cristo é profundamente libertador. Sobretudo o primeiro cristianismo, antes de se tornar uma religião do estado, era uma ética urbana, um modo de vida. Não era uma teoria metafísica, mas de convivência.

Que posição tomaram os metodistas frente ao casamento igualitário?

N.F .: Nos tempos coloniais eles já estavam lutando pela liberdade dos escravos. Em seguida, tanto por uma educação livre e gratuita, como pela liberdade de culto e pelos direitos trabalhistas. Na Argentina, eles se pronunciaram a favor do casamento igualitário. Isso não significa que todos pensem da mesma forma porque há também liberdade de consciência.

F.R .: A primeira bênção (casamento) no campo do protestantismo de um casal de pessoas do mesmo sexo foi feito na Igreja Valdense do Rio da Prata. Na Igreja Metodista nós tivemos a Bispa Nelly Ritchie: mulher, patagônica e lésbica.

Por que foi criado o movimento dos Metodistas pela Diversidade?

N. F .: Devido precisamente a diferentes posições acerca destes dois temas – casamento igualitário e ministérios de

pessoas LGBTI – as autoridades decidiram formar uma Comissão para estudar a questão da diversidade sexual. Mas essa Comissão não tinha nenhum membro LGBTI. Nós pedimos às autoridades que participássemos em pelo menos 50% da referida Comissão e, enquanto esperávamos a resposta, desenvolvemos uma rede de comunicação nacional. Fomos nos agrupando rapidamente no que hoje se conhece como Metodistas pela Diversidade.

F. R: A cada quatro anos há uma grande assembléia metodista em que se elege o bispo. Agora, metodistas gays, lésbicas e transexuais de todo o país vão ignorar essa assembléia e pedir a criação de uma nova Comissão de Gênero com paridade, em que haja três pessoas trans e três cis. Estamos em pleno diálogo com as autoridades eclesiásticas sobre este assunto.

Primeiro Encontro Nacional de Metodistas pela Diversidade: Sábado, 30 Março de 19, na Igreja Metodista de Almagro, Avenida Rivadavia 4050.

+ (PE / Página12)

Esta entrevista foi publicada no matutino Página 12, de 29 de março de 2019.

Traducción al portugués del articulo ¿Es posible conciliar fe  con disidencia sexual? Del SN 2008/19 De Ecupres

SN 209/19

Un comentario sobre “Parte de minha religião

  1. lamentable comentario de FR sobre nuestra querida Obispa que descansa en el Señor. FR es un tipico arribista y habil manipulador politico. Lamento q uds hayan levantado esta nota q mas q informar hace daño a alguien q no esta con nosotros. La foto lo muestra como es mostrando y escondiendo. Espero q puedan presentar uma nota sobre el tema de la homosexualidad como alguien mas confiable, repredentativo y no meros chantas arribistas. Un saludo fraterno pas Anibal y el equipo. Hugo Garcia

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