A letra com bala entra

Renán Vega Cantor

O Coletivo, Medelin

Há fatos da vida cotidiana que indicam melhor do que milhares de especulações o grau de decomposição a que chegou a um país determinado, como os Estados Unidos. E não nos referimos aos crimes que o imperialismo estadunidense realiza diariamente em qualquer lugar do mundo, como aqueles que perpetra nestes momentos contra a população venezuelana.

Não. Estamos falando sobre a autorização dada aos professores para portarem armas de fogo nos recintos e salas de aula, aprovada no estado da Flórida. Lá, a lei “de segurança escolar” permite que professores e outros funcionários da escola portem armas de fogo, presumivelmente depois de uma verificação de exame psicológico e treinamento quase militar.

Juntamente com a Flórida, foi aprovado o porte de armas pelos professores em escolas, faculdades e até mesmo em universidades em dez outros estados da união americana. No caso da Flórida, a justificativa para aprovação dessa medida foi o massacre de 14 de fevereiro de 2018, quando em uma escola um de seus ex-alunos matou 14 alunos e 3 professores.

Imediatamente, Donald Trump, um tipo de gangster do faroeste, afirmou que “uma zona escolar desarmada é um magneto para pessoas más” e pediu que os professores fossem armados como uma forma de se enfrentar o problema. Como quem diz que para apagar o fogo você tem que adicionar mais combustível à lamparina.

Esta “cultura das armas” que atingiu o sistema educacional dos Estados Unidos não parece estranha se considerarmos que nesse o país se presta culto a artefatos bélicos, a ponto de haver mais armas do que habitantes. Uma arma pode ser adquirida sem qualquer dificuldade em qualquer loja, e elas são vendidas sem restrições para quem tenha 18 anos ou mais. No Estado da Flórida, de um total de 21 milhões de habitantes, dois milhões andam armados cotidianamente, com pistolas, rifles e dispositivos ainda mais letais. O culto às armas professado nos Estados Unidos leva a frases estúpidas como as ditas por Wayne LaPierre, da National Rifle Association. Este argumentou que o direito de portar armas “não foi outorgado pelos homens, mas por Deus a todos os americanos, por direito de primogenitura”.

Que haja armas nas dependências escolares e que os professores as portem mostra o grau de decomposição moral, tanto da sociedade, como educação.

Da sociedade, porque indica até onde chegou ela no culto à morte, no desrespeito à vida alheia, no culto à propriedade privada, no fetichismo da tecnologia macabra e na defesa da violência para a solução de qualquer problema na vida cotidiana. Nesse sentido não deveria nos surpreender que diariamente nos Estados Unidos uma centena de pessoas sejam assassinadas com armas de fogo e que periodicamente se realizem assassinatos indiscriminados, com dezenas de mortos e feridos, por parte de fundamentalistas cristãos, racistas e xenófobos.

Da educação, porque altera completamente o seu significado, tanto que devemos procurar outro nome para denominá-la, já que qualquer educação que mereça tal denominação deve contribuir para a formação integral dos seres humanos, para o respeito aos outros, para gerar solidariedade e companheirismo, para preservar os valores fundamentais da humanidade e, em primeiro lugar, o direito à vida. Mas nada disso pode ser preservado quando a escola se converte em um forte militar e os professores se transformam em potenciais sicários na sala de aula, em uma espécie de pedagogos da morte.

Que ambiente de saudável convivência, de livre deliberação, de debate e intercâmbio de idéias pode ser suscitado em um espaço cheio de armas, que a qualquer momento podem ser usadas por aquele que agora leva uma pistola pendurada no cinto e dá uma aula? Que tipo de autoridade, que não é autoritarismo, e que modelo de ser humano pode gerar um professor que leva consigo uma arma, pronta para ser ativada no momento menos esperado? Com toda a carga emocional que entra em jogo cada aula, e quando é preciso enfrentar uma diversidade de problemas e contingências (o produto de um mal-entendido, um grito, uma repreensão, de uma discussão entre estudantes, da antipatia mútua entre professores e estudantes, de rancores acumulados, de fobias… ), as armas de fogo se tornam um objeto que provoca não apenas medo, para não discordar, para discutir nem perguntar, mas que mais de um professor será tentado a usar em qualquer momento para silenciar um aluno que, para completar, é altamente provavelmente também decida armar-se.

E isso torna realidade o velho projeto reacionário de educar de forma sangrenta, que pode ser atualizado com a máxima: A letra com bala entra.

A educação da morte, seu verdadeiro nome, já não pretende resolver os grandes problemas humanos ou conduzir os alunos e professores a

enfrentá-los, levantando questões e soluções baseadas no humanismo, pois agora prima a lei do mais forte, do mais rápido, do que tenha melhor pontaria. Em suma, é a lei típica do oeste trazida para as salas de aula, o que aumenta a saga de sangue e horror que distingue a sociedade americana.

+ (PE / El Grano de Arena)

Versión en portugués del despacho SN 340/19

Traducción Sergio Marcus Lopes  <smplopesbr@gmail.com>

SN 343/19

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