Depois do voto, os desafios futuros dos movimentos sociais

Argentina, eleições decisivas

Sergio Ferrari, de Santa Fe, Argentina

Depois do voto, os desafios futuros dos movimentos sociais Argentina, eleições decisivas Sergio Ferrari, de Santa Fe, Argentina As eleições de domingo 27 terão um impacto significativo na vida nacional. Nas urnas se dicidirá o aprofundamento de um modelo neoliberal clássico, estabelecido desde o final de 2015 por Mauricio Macri, ou uma mudança da orientação política com um cunho social forte, como o anunciado pelo programa do candidato da oposição Alberto Fernández. Nesse contexto, os diferentes atores sociais se posicionam em relação aos próximos quatro anos e antecipam suas linhas de ação a partir de 10 de dezembro, quando se inicia o novo período presidencial.

Na nova etapa, o movimento sindical terá desafios muito concretos. Caso ganhe a fórmula Alberto Fernández-Cristina Fernández de Kirchner da peronista Frente de todos, de centro-esquerda, se vislumbra uma “mesa de diálogo nacional”. Nessa mesa participarão dois atores muito golpeados: os trabalhadores, que, nos últimos anos, perderam mais de 250 mil postos de trabalho; e um setor do empresariado, asfixiado por créditos altos e pela deterioração do mercado interno como resultado da queda nos níveis massivos de consumo da população, explica Victorio Paulón.

Movimento sindical e diálogo nacional
“Um diálogo entre dois necessitados, ao qual será importante atender dada a dimensão da crise deixada pelo governo de Macri”, diz Paulón, sindicalista de longa trajetória, ex-preso político durante a última ditadura e chefe do Sector de Derechos Humanos da Central de Trabajadores de Argentina (CTA).
Os sindicatos combativos e os movimentos sociais serão “interlocutores imprescindíveis”, não só porque foram atores essenciais do combate ao ajuste neoliberal dos últimos anos, mas também porque será necessário definir uma fórmula para relançar a economia, explica o líder sindical.

No dia 3 de outubro, sua central sindical anunciou que se reintegrará à Central General del Trabajo (CGT), a maior da Argentina, da qual se distanciou em 1992 por conta de diferenças com a liderança mais tradicional e burocrática sobre o modelo de país e o tipo de democracia sindical.
“Essa unidade é uma necessidade frente o futuro”, salienta. Ao mesmo tempo, exige repensar a necessidade de uma renovação geracional da sua direção; bem como resolver diferenças, pois, nos últimos anos, houve um setor de sindicalismo muito condescendente com as políticas de ajuste promovidas por Macri.
Caso o candidato peronista Alberto Fernández ganhe no dia 27 de outubro, se deverá refletir em um futuro próximo sobre “como garantir a autonomia do movimento sindical que, em sua maioria, também se define como peronista”, questiona Paulón, que reside na cidade de Rosario. “Eu não creio que haja problemas em garantir essa autonomia imprescindível”, diz ele. Em particular, porque após esta extraordinária resistência de quatro anos, existe no movimento sindical uma nova geração de jovens dirigentes kirchneristas que não renunciará à luta pela recuperação do salário e de todos os direitos essenciais que o macrismo lhes arrebatou.
Qual seria a atitude deste movimento sindical hoje reunificado no caso que, contra todas as últimas pesquisas, o atual presidente vença nas urnas? “Embora eu veja que essa hipótese é improvável, haveria um aprofundamento da resistência e o governo Macri teria um problema de governança ainda mais grave, uma vez que o crédito de 57 bilhões de dólares que ele recebeu nos últimos anos do Fundo Monetário Internacional (FMI) está esgotado. Teria que impor novas políticas de ajuste que provocariam uma maior resistência –e até mesmo violência–, dada a enorme deterioração do clima social. Se transitaria em um beco sem saída para o sistema”, enfatiza, fazendo um paralelo com os protestos sociais antigovernamentais que aconteceram recentemente no Equador e, nas últimas horas, no Chile.  
Feminismo e autonomia
“O movimento amplo de mulheres, de lésbicas, de travestis, trans e não binários tem uma clara posição antiliberal. Após Mauricio Macri tomar posse, em março de 2016, lançou a primeira greve contra o governo”, inclusive, muito antes da primeira paralisação da CGT, recorda a advogada Lucía Puyol, militante de HIJOS (organização dos filhos e filhas de detidxs-desaparecidxs, de assassinadxs e de ex-presxs políticxs durante a última ditadura) e dirigente feminista de Santa Fe. “Nos Encuentros Nacionales se vê dois tipos de militâncias de gênero”, diz Puyol.
Um, dentro dos partidos políticos, e outro nas associações e nas organizações do próprio movimento de mulheres. É importante chegar a acordos e firmar alianças e unidade, apesar das diferenças, precisa. No 34º Encuentro Nacional de Mujeres que aconteceu nos dias 12, 13 e 14 de outubro, na cidade de La Plata –e no qual participaram mais de 200 mil ativistas de todo o país–, temas de grande importância: trabalho, saúde, educação, não-violência, direitos sexuais, estratégias de acesso ao aborto, ecofeminismo, prazer, soberania sobre o próprio corpo etc. foram discutidos em mais de 114 oficinas. Também foram debatidos os cenários políticos posteriores às próximas eleições.
A ampla diversidade dos feminismos que existe nesse movimento “exige que não assumamos propostas partidárias; mas, majoritariamente, nos definimos como antiliberais, anticapitalistas, antipatriarcais e antimacristas”, salienta. No recente encontro de La Plata, foram ratificados os principais eixos de ação, independentemente de quem vença as eleições presidenciais. “Priorizamos o trabalho com os setores mais populares e preteridos; levantamos nossas vozes e nossa firme denúncia da feminização da pobreza –uma vez que as mulheres são as principais vítimas desse flagelo– e reivindicamos a grande riqueza e variedade geracional que vivenciamos no movimento, no qual participam mulheres de diferentes idades, das mais anciãs às adolescentes”.
Como eixo essencial na próxima etapa, informa, “prevemos continuar a luta pelo aborto legal, seguro e gratuito, ou seja, a favor de sua descriminalização e por sua legalização, dando continuidade à luta que protagonizamos no Parlamento e nas ruas no último ano”, explica Puyol.
Sem perder de vista também os mecanismos concretos para assegurar sua aplicação correta uma vez que a legalização for conseguida, afirma: “Exigimos que sejam executadas políticas públicas para que existam nos hospitais profissionais competentes e insumos necessários. Estamos convencidas de que o liberalismo não está interessado em nossas reivindicações”, diz ela.
Quanto ao futuro dos direitos humanos, Lucía Puyol recorda que, embora tenham sofrido muito durante o governo Macri, há um movimento de grande fortaleza na Argentina, que aprendeu com as Madres (mães) e com as Abuelas (avós) da Plaza de Mayo. “Fomos capazes de resistir.
Macri tentou frear os julgamentos contra os responsáveis por crimes de lesa humanidade, quis libertar os genocidas, tentou ridicularizar a luta falando sobre o ‘negócio de direitos humanos’…, no entanto, não teve sucesso e continuaremos avançando, porque, há anos, na Argentina, dissemos NUNCA MAIS”. (PE)  
* tradução: Conchita Rosa de Lima
SN 511/19      

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