A Bíblia e as espadas dos pseudo-evangélicos.

Por Aníbal Sicardi +

 Baía Branca

O que aconteceu na Bolívia voltou a resignificar Bíblia ao colocá-la junto às espadas de pseudo-evangélicos que concretizam novamente a conquista de 500 anos atrás. Ao relacionar-se com a situação quente do Bolsonaro brasileiro, aumentaram muito os comentários sobre o novo surgimento de evangelistas ou evangélicos na América Latina e no Caribe. Mas não é assim. Este aparecimento de igrejas e movimentos evangelistas tem décadas.

Em 1968, foi concluída uma análise do continente encomendada pelo Departamento de Estado dos EUA que se chamou Documento de Santa Fé, por causa do lugar em que foi apresentado. Entre os aspectos considerados no documento, estava a conclusão de que a Igreja Católica Romana (ICR) perdia força e o apoio do povo da América Latina e do Caribe. A época do Vaticano II, o início da Teologia da Libertação e outros movimentos, visualizavam essa mudança de poder. A conclusão era lógica. Os Estados Unidos não podiam mais usar a Igreja Católica Romana para apoiar sua política no continente.

A resposta à questão foi a necessidade de se criar movimentos religiosos de “marca cristã” que fossem ocupando o espaço enfraquecido da ICR visto que uma aliança com as igrejas evangélico-protestantes era impossível. Em acordos com evangélicos no sul dos Estados Unidos, chamados “evangelicais” e com o Partido Republicano, começa um grande movimento cristão de aparência pentecostal que abrange a América Central e parte do continente latino-americano. Sua pregação é fortemente anticomunista, contra os processos de libertação da Nicarágua, El Salvador e outros, incluindo Cuba. Para isso alguns pastores americanos se instalam na zona da América Central com discursos que vão até à proposta de matar Fidel Castro.

A tarefa de captação foi bem-sucedida. Eles conseguem articular igrejas e que seus fiéis leiam a Bíblia e a levem para o trabalho, onde a liam no tempo livre. Uma das maiores conquistas políticas ocorreu na Guatemala. O pastor Efraìn Ríos Montt, em 1982, alcançou a presidência da nação e se tornou o maior ditador da Guatemala e um dos mais cruéis do continente. A proposta de criar essas agrupações pseudo-evangélicas já era bem-sucedida. Algo semelhante aconteceu com o apoio evangélico a Alberto Fujimori no Peru e em outros lugares. Sempre à direita. Agora, na Bolívia, há um avanço na prática e afirmações desses movimentos. A autoproclamada presidenta da Bolívia leva a Bíblia à casa do governo acompanhada de frases de combate a ritos satânicos aborígenes. Ela tenta impor a Bíblia e sua interpretação do cristianismo como a coisa central e que nunca deveria ter mudado. Ou seja, repete a estratégia de há cinco séculos atrás, querendo impor a cruz pela força da espada.

As declarações da autoproclamada presidente são acompanhadas pela repetida foto de seu rosto. Têm indícios claros e vigorosos da proposta branca sobre como as mulheres devem ser. Propõem a interpretação bíblica do poder do homem sobre a mulher e fazem coincidir isto com o que aconteceu na conquista: somam a ela a espada. A aparição de Luis Fernando Camacho, que não era militante religioso ou candidato político à presidência, reforça o progresso dos pseudo-evangélicos em sua interpretação de que o cristianismo branco e ocidental deve ser imposto. Nada dizem do papel religioso do detentor econômico da área de Santa Cruz, que o envolve até mesmo na produção dos laboratórios que transformam coca em cocaína e a exportam com absoluta liberdade para o exterior. Eles aceitam a grande contribuição de Camacho, que entra na casa do governo com sua Bíblia e um rosário e proclama que “Jesus domina a Bolívia”, “Fora Satanás” e outros slogans similares.

A Aliança do ano 325 dC entre o Imperador e a Igreja se articula à reinterpretação da religião, a “evangelista”. Naquela época, o slogan era ganhar os pagãos. Agora, o objetivo é eliminar os aborígenes. A administração de Evo é elogiada por sua bem-sucedida tarefa econômica. O problema, não tão oculto, é a distribuição desses ganhos econômicos. Ela favorece os nativos. Eles são transformados em sujeitos da história, removendo-os da escravidão branca. Agora são pessoas, um assunto impossível de aturar para o poder econômico internacional que propõe a escravidão do capitalismo. Nesta trajetória deve incorporar-se a do cristianismo ocidental. De um poder hegemônico do catolicismo romano, se passa à contenda católico-protestante europeia, logo trasladada ao continente latino-americano-caribenho, e daí a uma importante instância ecumênica que posteriormente se liquefaz e fica sem sentido. Agora, existe uma nova forma de poder econômico-religioso que apaga as diferenças doutrinárias e de práticas confessionais. As igrejas institucionais ficam presas ao silêncio ou a comunicados que revelam sua colonização ao sistema capitalista. Deixam de lado essa grande quantidade de seguidores e seguidoras que aguardam a condenação de situações como a da Bolívia, Equador, Guatemala, Haiti e inclusive a desmemoria européia.

Assim, é o futebol que levanta oposição ao que está acontecendo. Na Argentina, houve uma infinidade de organizações que criticaram o que estava acontecendo. No campo do “eclesial”, no entanto, apenas os Pastores pelo Povo (PxG), de origem pentecostal, contaram sua verdade, de modo mídias como La Nación, Perfil, Notícias e a TV foram obrigadas a divulgá-la de uma maneira estranha, porque os rotularam como “pastores rebeldes”. Rebeldes a que ou a quem?

O que aconteceu na Bolívia excede a maneira atual de se apresentarem as igrejas institucionais e certo ecumenismo que não existe mais. Aparece a necessidade de uma nova instância de unidade cristã para o bem da humanidade que ultrapassa o confessional e suscita a mensagem bíblica de Deus para todos. O indigenismo, o papel aborígene, aparece como a revolução do século XXI, assim como o feminismo o fez para o século XX. + (PE)

+ Aníbal Sicardi é pastor metodista da Igreja Central da Bahía Blanca. Este artigo é uma versão de sua pregação no culto de domingo, 10 de novembro de 2019

Traducción Prof Sergio Marcus Pinto Lopes

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SN 561/19

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